10/03/2013

Cuidar de um bebê



Estava aqui pensando num assunto que fosse legal para escrever sobre, quando a Cláu me sugeriu falar sobre ser au pair de um baby, e eu gostei da idéia.
Como tudo, cuidar de um baby tem seus prós e seus contras. Para mim, mais prós do que contras.
Cuidar de um baby é garantia de que durante seu ano de au pair você terá sempre uma criaturinha que olhará para você como um ponto de referência, com um amor inocente de uma criaturinha pura. Um companheirinho ou companheirinha, que irá crescer e amar você incondicionalmente e confiar em você de uma maneira que talvez jamais ninguém confiou.

Isso, me desculpem as au pairs de crianças mais velhas, só tem quem é au pair de bebê.

Sim, um bebê não fala. No início. Você “não tem com quem praticar o inglês”. Porém, se você ficar os dois anos, vai ter a satisfação de vê-lo falar até pelos cotovelos. E foi você, em grande parte, responsável por isso.

Um parêntese aqui.
[Desculpe aí querida au pair, mas se você vem com o objetivo máster de “aprender inglês a qualquer custo” não vai ser por causa do bebê que não fala que você vai se frustrar... vai ser porque você vai estar limitando seu sonho ao simples “ficar fluente” ao invés de explorar as infinitas possibilidades que os EUA oferecem em diversão, aprendizado, enriquecimento cultural, etc. Inglês a gente aprende. De um ou de outro jeito, tendo que se virar no dia a dia. Você aprende. Aliás, quem quer mesmo aprender, mesmo cuidando de um baby, canta, fala sozinha, treina a pronúncia lendo um livro em voz alta. Ou seja: não é a falta de falar com crianças mais velhas que vai te limitar de aprender o idioma SE ESSE FOR TEU OBJETIVO PRINCIPAL (e SE você for meio que paranoica com voltar com um inglês tinindo).
Ah, aproveito para te falar: para ser fluente numa língua são necessários 5 anos de imersão. Não um. Não dois. Cinco. ]

Cuidar de um bebê significa você sentar no chão, dar uma colher ou outro objeto qualquer na mão do pequeno (nada de objeto pequeno que caiba na boca, pelamor de Deus!) e ficar observando ele se maravilhar por esse objeto novo.
(Crianças mais velhas não se maravilham nem com o último modelo de iphone).

Cuidar de um bebê significa descobrir uma coisa absurda qualquer que faz ele rir às gargalhadas, e repetir infinitamente só para ouvir essa risada gostosa e rir junto.
Cuidar de um bebê significa aprender musiquinhas de ninar, ou musiquinhas para brincar, ler (e aprender de cor) livrinhos bobos que vão te ajudar a conhecer palavras novas em inglês. Meus favoritos eram the wheels on the bus e five little monkeys, que o pequeno B. gostava que fizesse ele pular nos meus joelhos quando os macaquinhos pulavam na cama.
Cuidar de um bebê significa sair de stroller pela cidade. No início você se sente meio envergonhada porque na sua cabeça brasileira “as pessoas na rua podem pensar que é meu filho”, mas logo se acostuma a que está nos EUA e ninguém dá a mínima e até está manobrando o carrinho na porta do Starbucks para grab a cup of coffee on my way to the park. É ir conversando e cantando com um toddler (nome que se dá aos bebês grandes e crianças pequenas, ou seja de 1 a 3 anos) cansado e mostrando tudo que vê pelo caminho para que ele não durma e estrague o horário do almoço, sem importar quem está vendo você cantar em voz alta para um bebê sonolento.
Talvez também signifique levar o pequeno à aulinha de música e ter que pagar lindos micos na frente dos pais para encorajar o pequeno a mostrar o que aprendeu de bom na aula (bater palmas ou dançar, etc).

Cuidar de um bebê significa uma, duas ou três (ou até mais, no início) naps por dia. Ou seja, momentos em que você vai poder sentar um pouquinho para descansar.
No meu caso, minha host deixava separadas leituras selecionadas de livros sobre childcare que ela ia lendo e que gostaria que eu lesse também para me aprimorar. Como eu amo ler, amo babies e cuidados com babies e acho que conhecimento não ocupa espaço, lia com gosto. Era bom “trabalhar” sentada lendo um livro, nem que fosse por alguns minutos. Porque sim, o nap pode durar 2 horas, mas também pode durar apenas 15 minutos. Essa é a parte brava.
Teve uma época em que “meu” baby dormia 25 minutos. Cravados 25 minutos. E acordava. E eu mal tinha sentado, ou estava no meio de uma sessão de lavação de mamadeiras do dia anterior, ou tinha acabado de descer as escadas para pôr o laundry.
Mas depois passou e ele passou a ter padrões de sono. Uma nap grande de manhã e uma de tarde. Então eu podia me programar para fazer o laundry ou cozinhar a papinha dele enquanto isso. Na minha host-casa era assim: tudo era orgânico, então as frutas e verduras tinham que ser lavadas, picadas e cozinhadas por mim, durante o nap (isso quando o bebê passou a fazer naps mais longas).

Cuidar de um bebê tem fases, porque ele vai mudando muito a medida que vai crescendo, e isso no início acontece a cada semana, depois a cada quinzena, depois a cada mês... aos poucos as mudanças vão ficando mais espaçadas. Seu trabalho nunca é repetitivo: tem a fase de olhar o tempo todo para ele não levar nada à boca, tem a fase de começar a dar papinha e ver as caretas ao provar algo desconhecido. Tem que carregar para tudo que é lado, nunca deixar sozinho num cômodo, tomar cuidados redobrados principalmente em casas que tem escadas (basicamente, todas as casas americanas). Tem a fase de encorajá-lo a engatinhar, a andar, e olha, cada proeza que ele faz pela primeira vez é uma mistura de alegria e orgulhinho inexplicável! E é claro, não pode ter nojo de trocar fraldas!
Na boa, quando eu cheguei lá tinha trocado umas... 3 fraldas. Na minha vida inteira! Tentei disfarçar a falta de traquejo e logo, observando e tentando me superar, virei expert. Trocava olhando para ele e fazendo caretas. Trocava enquanto tentava impedir que ele tocasse na fralda suja. Trocava em menos de 1 minuto, isso contando o abrir e fechar de roupinhas. 2 minutos se era um cocô bravo. Rsrs.

Eu morria de medo de que ele fosse engatinhar/andar/falar pela primeira vez comigo e não com os pais... quer dizer, não medo, mas se por um lado queria estar presente quando acontecessem esses momentos importantes, desses que rolam na cabeça da gente ao som da música-tema de ‘2001-uma odisseia no espaço’, achava triste ter que chegar para os pais quando eles me perguntavam como foi o dia e dizer: “foi ótimo! Você nem imagina! O B. finalmente andou hoje!”
Mas confesso que alguma vez (não me lembro qual foi o milestone que ele alcançou) aconteceu enquanto estava comigo e fiquei na minha, não falei nada e esperei que ele fizesse com eles e que eles viessem me contar orgulhosos. Shhh segredinho de au pair.

Para ser au pair de um bebê (na verdade para ser au pair de qualquer criança, mas é especialmente importante quando se trata de um bebê) a comunicação e o bom relacionamento com os pais é fundamental. O pequeno não vai conseguir dizer se já comeu e quanto comeu, se fez cocô naquele dia, se aconteceu uma coisa qualquer. E os pais precisam saber da maior quantidade de detalhes possíveis. Se acontecer algo, digamos o bebê passar mal durante a noite, ou tiver febre, os pais não vão conseguir perguntar para ele o que comeu durante o dia, se dormiu, bebeu água, fez cocô, pegou muito sol, ou se se comportou de maneira estranha em algum sentido. E mais: bebês que começam a se movimentar estão sujeitos a tombos, hematomas e outros machucadinhos diversos, que vão aparecer no corpinho dele. Explique SEMPRE para os pais no fim do dia o que aconteceu, se ele caiu, onde se bateu, enfim. Não espere eles virem questionar nem um “roxo” que apareceu no joelhinho! JAMAIS esconda nenhum tipo de informação dos pais, e não preciso nem dizer né, JAMAIS use de força com um indefeso, seja tapa, beliscão, puxão no braço, NADA! Entendeu? Parece óbvio, mas conheço au pairs que perdiam a paciência e acabavam puxando a criança pelo braço, dando uma palmadinha, etc. Que o bebê não possa contar aos pais não quer dizer que você pode fazer isso só porque não será descoberta (se não tiver câmeras). Isso é uma covardia! NÃO FAÇA NUNCA!
Falando em câmeras. Numa casa em que você, praticamente uma desconhecida, irá ficar o dia inteiro com um baby, acostume-se com a ideia: é bem possível que haja câmeras.
Se seus hosts forem bem abertos irão contar. Mas... não ache que é obrigação deles e muito menos que não é o direito deles instalar câmeras e não te contar! Pense bem: até que ponto você confiaria numa semi-estranha, que agora mora na sua casa, o cuidado com seu pequeno indefeso? E por que eles deveriam, necessariamente, contar que há câmeras? A casa é deles, o filho é deles, e você não deveria estar fazendo nada que pudesse te deixar em “maus lençóis”.
Dica: trabalhe SEMPRE como se realmente tivesse um jogo de câmeras te vigiando em cada cômodo.
A minha host chegou a perguntar, algum tempinho depois que cheguei, como me sentiria se tivesse câmeras na casa. Eu fui bem sincera: era um direito deles, o qual eu compreendia muito bem e inclusive seria uma segurança para mim mesma saber que estavam cientes de tudo que estava acontecendo e caso acontecesse uma coisa qualquer eles saberiam de imediato.
Mas não tinha câmeras. Acho. :)
Ah, e como você vai passar o dia todo cuidando dele, é bem provável que todos ou quase todos seus finais de semana sejam livres. Ou pagos à parte. Just saying.

Enfim, cuidar de um bebê tem muitos aspectos positivos. Para mim o principal mesmo é o companheirismo lindo que você e ele/ela vão desenvolver à medida que o ano passa. 
Tenho uma foto (não posso publicar aqui, pois não acho certo colocar fotos da criança na internet) que para mim é a mais linda de todas, apesar de estar completamente fora de esquadro: quando o B. tinha uns 6 meses, o levei ao parque, estendi uma blanket e tentei colocar a câmera para tirar uma foto de nós dois. No instante da foto, eu olhando para a câmera sorrindo, ele esticou o bracinho e colocou a mãozinha na minha bochecha num gesto imensa doçura. O olhar azul daqueles olhinhos inocentes que a câmera registrou até hoje me enche os olhos de lágrimas só de lembrar.

A parte triste é que o bebê vai crescer e não vai se lembrar. A parte feliz é que você nunca vai se esquecer. Mas isso tudo faz parte da experiência.

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P.S.: Este post tem vários termos e frases em inglês, que foram incluídos propositadamente. Imaginei que quem lesse iria gostar de ir acostumando a leitura com alguns termos e frases de uso cotidiano, e tem coisas que eu simplesmente –perdoem meu surto saudosista- não consigo traduzir sem fazer perder o sentido. 
P.S.2: Desculpem a extensão, eu me empolgo mesmo. :)
Foto: Eu mesma que tirei, num fim de semana em que viajei junto com eles para as montanhas.


18 comentários:

Beth disse...

ótimo texto, me ajudou bastante :)

Eveline disse...

Amei o post, não tinha essa visão.

Júlia Menezes disse...

Ameeei o post!!

Anônimo disse...

lindo o post! ameeeei
super concordo que com o bebe a relação de afinidade tem muito mais chances de ser bem maior, e que cada coisinha dele vai ser teu orgulho. a parte ruim é pensar que eles cresce e n vai se lembrar de nada, mas enfim, nada é perfeito.

ps: muito bom ler posts com expressoes em ingles, principalmente se vc nao as conhece - mais uma maneira de aprender ;)

Mari disse...

Fico feliz em ser de ajuda. :)

Mari disse...

Sempre podemos crescer vendo o mundo através dos olhos de outra pessoa.

Mari disse...

:D

Bruna Letícia disse...

eu AMO bebês, são a minha paixão, eu me derreti toda lendo esse post e confesso que chorei! com certeza quero ser au pair de baby <3

Anônimo disse...

Amei o post. Sempre quis ser Au pair de babies e ctz depois desse post não tenho mais duvidas.

Suélen Breier disse...

Que lindo!

Amei o post!!

Como eu não tenho muita experiência, nem tenho ideia de como é cuidar de um baby, não tenho preferência ainda! haha vou esperar completar minhas horas pra ver o que acho.
Mas vou ter que aprender a não ter nojo de trocar fralda, porque isso eu tenho! haha.

Beeijo!

Mari disse...

Acho que essa parte de que ele não se lembra faz parte... mas por outro lado, como ele absorve muito mais o que você ensinar, tem uma alegria secreta em ver a pessoinha depois de uns tempos e perceber que certas atitudes foi você que inculcou, você que educou para ser desse jeito e não de outro. Dá um orgulhinho mesmo!

Mari disse...

Que bom Bruna! Não vai se arrepender.

Mari disse...

Fico feliz de contribuir para uma decisão feliz. :)

Jully disse...

otimo post!
Eu cuido de um bebe e de um mais velho de 2 ano e pouco!
E eh simplesmente fantastico cuidar de um bebe! Nao quero nem imaginar o dia que eu for embora como que vai ser!!
Agora soh aproveitar mais esses 4 meses que me restam! :)

Mari disse...

Olha, quando a family entrou em contato comigo eu não tinha cogitado cuidar de bebê, até porque não tinha horas suficientes para infant care, mas isso é mito: se a família gostar de você e não se importar que você não é habilitada para infant, a agência não impede! (pelo menos era isso em 2009 quando eu fiz o match). Eles caíram de pára-quedas, eu comecei a considerar a ideia de cuidar de um bebê, peguei umas dicas com a minha mãe e vambora com a cara, a coragem, a mente aberta e a vontade de fazer valer! E valeu! Muito! Minha dica é: keep your min open! Mantenha sua mente aberta! Um abraço!

Mari disse...

Ahh aproveite mesmo! E não pense muito no dia em que for embora, senão você sofre por antecipação. Porque sofrer, vai sofrer mesmo, não tem jeito! Aproveite o HOJE!
Um abraço!

Tai Aupairiando disse...

Adorei o post, Mari! É exatamente assim que eu me sinto.
Acompanhar cada evolução, cada mudança, por menor que seja, dá um sentimento de gratidão tão grande na gente, não é mesmo?

* Nay * disse...

Adorei o post!!
É isso mesmo! acho que a questão de comunicação com os pais é super importante - e concordo contigo - principalmente com os bebês.
Minha faixa etária - como aupair - cuidando de crianças foi de 3 à 8 anos - eles falavam por conta e muitas vezes a comunicação com os pais era zero. Agora com bebê, é bem como vc disse.
Outra coisa que super concordo contigo - muitas meninas escolhem cuidar de mais velhos para praticar inglês e tal. Até aí, eu me encaixo, mas tbm concordo que há outras maneiras para aprender inglês. Eu sempre gostei dos pentelhinhos. E quando comecei a cuidar da menina de 3 - nossa mãe!!! A menina era uma tagarela! Não fechava a boca pra nada. Até o dia que coloquei na nossa rotina o quiet time - pra ver se ela dava uma folga! hahaha
Aposto que tens muitas historias para contar, hein!
bjaao pra ti.